Um Cara Que Eu Gostaria de Ter Conhecido? Frank Zappa!


“ShutUp’N’Play Yer Guitar” é sabedoria universal, guitarra em punho ou não: vai lá e faz o que tem que ser feito, maluco.

Não lembro da primeira música que ouvi do Zappa, eu já devia ter uns dezoito ou dezenove. Lembro do primeiro disco que tive dele, presente da namorada, então mais especial: ela andou umas léguas aí pra achar. Bongo Fury. Ainda piro com ele. Quanto ao cara, rola aquela polarização: tem a banda do contra (quase sempre do tipo não-ouvi-mas-já-não-gosto) e a banda a favor (quase sempre fanáticos). Não tem muito meio termo. Sou da segunda leva.

Não vou fazer crítica formal, nem de álbum nem de faixas. Isso é cretinice. Zappa já cantou a pedra a muito tempo: “Jornalismo musical é gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar pra gente que não sabe ler”. Dar adjetivos pra acordes de guitarra ou resenhar letras com linguajar pseudometafísico devia tá na constituição como crime. Inafiançável. Crítico gosta mesmo é de ganhar ingresso de graça pra ir sentir de perto o bafo de cachaça do músico.




Reparem no jeito canastrão e na forma de cantar. A sonzera de fundo. Era assim o cara...



O que me interessa é falar do homem que foi Frank Zappa. Mas o dito é homem que não se separa de sua obra, foi sincero a esse ponto até a morte. Então, falar da postura dele em relação à música é falar da postura dele como um todo. Acompanhemos.

Quer uma surra? Zappa faz um espancamento musical. Eu piraria num show do cara, coisa impossível de sair ileso. Quase sempre eram shows de duas, três horas direto, sem intervalos entre as músicas. Depois, um bis de mais meia hora. E um tris de mais meia hora. Tudo no mesmo molde. Tudo com histórias mirabolantes contadas no meio de jams, piadas infames, garotas subindo no palco, calcinhas e sutiãs atirados e formando por fim um varal colorido que ele olhava e dizia com voz de canastrão: “Very Interest”. Quando dava espaço pra banda, ia pra um banco alto, pegava uma batuta e lá ia reger a turba. Paudurismo total. Virtuosismo não gratuito: custava sua sanidade musical, preço justo a pagar.

O cara às vezes era só simplicidade (bem às vezes), em outras conseguia entupir uma folha pautada com notas: quiálteras de 5, 7 e 11, pegando leve. Isso por si só não quer dizer coisa nenhuma, estuprar instrumento é fácil. Mas esse malandro tinha era ginga; ouvi pouca gente que conseguiu homenagear a cultura negra com tanta honestidade. Porque, fora dos malabarismos orquestrais, o que o Bigode fazia era blues, jazz, rock, soul e funk de primeira. E soube homenagear essa música do jeito que a música o ensinou: sem se levar à sério. Essa capacidade de deboche era o grande trunfo humano que ele tinha e isso, meu caro, é ensinamento pra se guardar. Entortar estruturas harmônicas sem quebrar a rebimboca é coisa pra poucos e habilidade pra levar pras outras coisas da vida.




Illinois Enema Bandit - aqui o audio é ruim, mas imagina isso no seu ouvido ao vivo...

É verdade que uma horda de músicos já passou pelas mãos do cara (gente que dava pra formar exército de invadir império – e foi o que fez no império americano). E também é verdade que muitos não fizeram grande coisa depois que saíram da banda, mesmo fazendo sucesso. Steve Vai é o grande exemplo: chato pra caralho! Narcisista a ponto de ser fascista. Entrou moleque na banda, teve a chance de aprender conceitos, feeling e pegada que muitos dariam o rabo pra aprender, mas foi dedicar a vida a fazer música pra punheteiro. Como diz o sábio Miltinho, não serve nem pra catá bosta.

E esse é o grande lance do Zappa: por mais que fosse um puta guitarrista, por mais que conhecesse e desconhecesse teoria musical, nunca arredava o pé do feeling. Desse feeling que vem aquele olhar crítico dele. E a mente inquieta. Centenas de álbuns: uns 80 oficiais, o dobro disso de álbuns “piratas” de apresentações ao vivo e mais um monte de coisas que a família não lançou ainda, vão fazendo isso aos poucos porque o mercado não comporta tanto. Fora os filmes e artigos. Li um texto dele uma vez, rememorando a adolescência e mostrando como o rock and roll surgiu – não de revoluções ou rebeldia, isso é pano de fundo: veio mesmo é do tesão acumulado da garotada. Simplesmente fantástico isso.

Com uma produção tão grande, há quem pense que ele era músico de gabinete: ficava trancado compondo, perdendo o contato com o mundo. Mas já falei sobre o feeling, isso por si só desmente o boato. Ele era mesmo muito rigoroso e organizado – coisa que parece absurda com todo aquele jeitão desleixado, mas é pra te confundir. Outros ainda acusam de ser música de drogado: mas Zappa era o músico mais antidrogas do cenário, sem ser careta nem senso comum. Depôs em uma investigação oficial criticando as políticas antidrogas. E músico dele que chegasse doidão em ensaio ou no palco, podia passar antes no RH e assinar a demissão. Os críticos que ainda insistem no contra, soltam aquela frase imbecil: “Se ele era tão bom, porque não gravou um Sgt. Peppers”? Gravou vários. Gravou também, falando nisso, uma paródia, em 67, tirando onda com a cara dos Beatles (vou falar, podem me odiar, mas eles não eram grande coisa, tiveram mais sucesso do que qualidade; isso dá pano pra manga, mas atira o primeiro submarino quem provar o contrário): chama-se “We’re Only in it for the Money”, e não tem como o título ser melhor.




Esse é um dos grandes temas que ele compôs. Vai junto uma seleção de fotos.

Por toda essa bandalheria que eu considero ele um herói. Teve peito pra encarar tudo, de prisão à candidatura presidencial dos EUA (e, vomitem arco-íris, foi um dos candidatos sem partido mais votado da história), de boicotes dos defensores da moral à concertos gigantescos encomendados e cancelados. Já passou fome pra continuar tocando. Sempre presente no convívio com a família e dos amigos próximos. Tinha o jeitão malandro e a perspicácia pra debochar na cara, dando um toque mais do que ofendendo. E tinha certeza do que fazia, aplicava na vida o que aprendia na música, na música o que via no dia-a-dia, na pauta escrevia tiradas e risadas. Morreu doente do saco, provavelmente de saco cheio de tanta lambança. Tudo pode soar como rasgação de seda da minha parte, isso é o que menos importa, a não ser que seu problema seja comigo. Mas é fato que eu adoraria ter conhecido pessoalmente esse sujeito, porque é nisso que eu acredito: na sinceridade e na coragem no que se faz, e no gingado pra fazer isso dar certo. E, na boa, se você nunca tinha antes ouvido falar nesse maluco, faz favor de ir atrás, com ouvido aberto e sem preconceito, vai valer a pena.




Por fim, umas das últimas entrevistas que ele deu, pouco antes da morte.


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Créditos:
Texto: Thiago Carvalho (todos os direitos reservados)
Fotografia: Divulgação (todos os direitos reservados)
Vídeos: vários autores (uso livre)
Publicado no blog O Inimigo do Bom é o Melhor

comment 1 comentários:

Folha Secas, Marrons Meia Rosas e Amarelas on 21:39 disse...

Cara! Vou voltar no seu blog! O q vi até agora tá bom Mui bom!

Um abraço!

José(Zé) Bernardino(Berna) Medeiros
Folhas Secas, Marrons meio Amarelas e Roxas:
http://folhasecasmaxasamarelas.blogspot.com/

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