Morte



Ele abre a porta de casa, lentamente. Vê um vulto grande se esgueirando e escondendo nas sombras.


- Porra, errei de casa. Foi mal aí.

Não, não errou. Na porta ele reconhece a bandeirinha do Atlético pendurada.

- Quem é que tá aí?

- Eu sou o Fim, a Divisão, o Corvo da Noite. O Ceifador!

- É o que?

- Vim a ti cobrar-te o preço final.

- É da imobiliária? Ó, eu sei que to com uns meses atrasado, mas to vendo umas paradas aí e vou acertar tudo, ok?

Ele acende as luzes e o vulto se delineia. É grande, esquelético, capa preta e segura uma foice enorme.

- Sou a Morte e esse é seu tempo.

- Cara, to perdidão. Explica aí sem firula, vai.

Ela coloca a mão sobre o rosto. Paciência.

- Sua vida acabou. Vim te levar comigo.

Ele vai até a janela e dá uma espiada.

- Aquele carro vermelho ali é o teu? Ta parado na frente da garagem do Bigode e o cara é chato pra caralho com isso.

- Dou a você o instante de dizer suas últimas palavras antes de irmos.

- Ah, qualé! E se a gente fechar um acordo?

- Que tipo de acordo?

- Deixa eu ver aqui: No bolso tenho doze conto e um isqueiro. Mas a gente pode dar uma passada no banco, devo ter mais vintão.

- Dinheiro? Você quer me dar dinheiro?

- Tava pensando o que, ô taradão? Sem essas idéias de cadeia aí, ó!

- Não há acordo com a Morte.

- Mentira, que eu vi num filme. Rolou um joguinho de xadrez.

- Quem ganhou?

- Você.

- E você joga bem?

- Nadinha.

- Então não há acordo.

- E truco? Sou bom nesse negócio. Posso chamar o Zeca e o Bola pra gente formar as duplas. É tudo parceirão.

- Não há tempo, chegou sua hora.

- Rola umzinho antes?

- Um o que?

- Um baseado.

- ???

- ???

- Você está me oferecendo drogas?

- Pela sua aparência, aposto que todo mundo oferece.

Ela o encara, enquanto ele vai tirando uma folhinha de seda duma caixa sobre a mesa.

- Entende o que está acontecendo aqui? Percebe que eu vim pra te levar pela última estrada?

- E tu quer que vá assim, de cara?

Ele começa a preparar o baseado, ela se senta num banquinho pra esperar. Aquele silêncio meio constrangedor.

- Como funciona esse negócio, tu vai de porta em porta pra fazer o serviço? Meio demorado, né não? Deve rolar um absurdo de hora extra.

- Eu posso estar em vários lugares ao mesmo tempo. Pra cada um é de uma forma. Posso ser um prego que fura o pneu. Posso ser uma bala na agulha. O torresmo da comida durante anos. Um maremoto. Um furacão. Um político corrupto.

- E meu caso, de qual é?

- AVC.

- Porra, sabia! Desde que eu li uma reportagem, fiquei noiadão com essa parada aí.

Ele acende o baseado. Cai de novo o silêncio.

- Hã, só por curiosidade, foi boa sua vida?

- Ah cara, teve uns perhaps aí vez ou outra, mas não posso reclamar não. Comi feijoada quase toda sexta-feira. Sábados no pagode. Meu time perdeu muito, mas os jogos foram bons. Ganhei três vezes na raspadinha e uma vez no bingão da festa junina. Tudo que um vivente pode querer.

- E do que vai sentir falta?

- Tem uma morena aí, a Dalva. Dessa eu vou sentir falta.

- Daquelas?

- Daquelas. Um doce de mulher. Quente. Sambista. Sorriso de matar, me desculpe a expressão. Pernas grossas. Tem um cheiro que me deixa doido. Ouvi uma palavra uma vez, não sei o que é, mas aposto que é o cheiro dela. Um troço aí duma árvore.

- Âmbar?

- Isso! Mas as coisas andam meio com nó ultimamente...

- Imagino. Compromisso? Ciúmes?

Ele vai até a geladeira e busca uma cerveja. Serve dois copos.

- Por aí. Anda falando em casamento. Me chama de vagabundo, galinha, isso e aquilo, mas aí vai cedendo e é só mimos. Tem dia que ta mais atacada e aí voa uns vasos no meu rumo. Eu até entendo o lado dela, mas tem prestação de geladeira pra pagar, arrumar a caixa d’água, conhecer a Bahia...

- Conversa mole. Você tem é medo.

- É, eu sei. Fica difícil ensinar truque novo pra cachorro velho. Mas, se eu tivesse outra chance, até arriscava.

- Sei.

- Sério mesmo. Pode ser que uma parada mais responsa me endireita um pouco. Pegar um trampo lá no armazém. Passear no parque. Conhecer os parentes dela lá do interior. Um toque de mulher ia melhorar um pouquinho o cafofo...

- Olha, ta ficando tarde. Vamos fazer o seguinte. Te dou uma chance. Você fica mais um tempo. Vê aí sua vida com a Dalva. Arruma um trabalho. Aproveita a vida de casado. Isso é importante.

- Porra cara, valeu demais! Tu é truta mesmo. Vou achar o cartão do orelhão e ligar pra ela.

A Morte vira o último copo, se levanta e caminha pras sombras, de saída. Pára no meio do caminho.

- Mais uma coisa...

- Pode dizer. Tu agora é de consideração.

- Sobrou uma ponta desse negócio aí?



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Creditos:
Texto e fotografia: Thiago Carvalho (todos os direitos reservados)
Publicado no blog O Inimigo do Bom é o Melhor

comment 1 comentários:

Antonio Carlos Muniz Macedo on 04:21 disse...

Não tenho adjetivos para te dizer como gostei do texto, apenas que li totalmente envolvido com o diálogo até o final, como se faz quando se lê um bom livro.

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