Versões


- Versão da Mulher: Não sei o que houve, ele simplesmente chegou assim em casa, arrumou a mala e se foi... A polícia apareceu, mas quem atendeu foi a dona Odete, uma senhora que vem aqui
toda semana pra me ajudar na faxina. Bem, na verdade, ela que faz a faxina toda, aproveito esse dia pra fazer compras, ir ao cabeleireiro, olhar as vitrines, essas coisas. Sabe como é, sou mulher, e já estou quase chegando aos quarenta, tenho que me preocupar com isso... Nem é por vaidade, não penso em parecer uma garotinha nem nada, mas a gente tem que se cuidar, se valorizar, fazer uma dietazinha, uma caminhada, senão a gravidade começa a te derrubar. Plástica eu nunca fiz... quer dizer, nada muito agressivo, mas tudo bem, eu admito: já tirei umas gordurinhas e andei aplicando umas injeções de botox... mas sei lá, às vezes eu fico pensando em fazer uma mudança mais radical, levantar os seios, uma lipo na barriga, tirar as papadas e as estrias, enfim, poder ficar mais à vontade na praia ou no clube. Porque, apesar de casada, não quer dizer que eu não goste quando os homens me desejam. É sempre um elogio. Já viu como está a Lurdinha, a mulher do Silvio? Entrou na faca mesmo, sem pudores, tá lindíssima. Ficou de me passar o telefone do cirurgião, me garantiu que é um verdadeiro artista! Mas do que é que estávamos falando antes mesmo?

- Versão da Odete: me lembro que cheguei cedo, e o patrão já estava de pé. Não estava com uma cara muito boa, mas já me acostumei a isso: às vezes ele e a patroa vão à festas e eu acho que ele exagera um pouco na bebida. Mas também, em cada festa chique que eles vão, até eu iria aproveitar ao máximo. Lá em casa não tem desses luxos não. Se tem festa, a gente se vira com uma feijoada e pinga Rabo de Galo mesmo. Mas naquele dia ele mal me cumprimentou, tomou o café e saiu. Voltou dois minutos depois, pegou uma sacola de papelão, dessas do mercado velho e saiu de novo. Depois do almoço, quando a patroa tava dando suas voltas por aí, apareceu a polícia. Perguntou sobre ele, onde é que estava, se tinha dito alguma coisa. Queriam entrar, mas não deixei: tá tudo tão perigoso, tem ladrão se vestindo de polícia só pra invadir a casa dos outros e roubar. É verdade, eu vi na TV. Morro de medo. Eles insistiram, mas eu não arredei o pé. Disseram que voltariam mais tarde. 

- Versão do Malandro: chega mais aí, vâmo conversar na miúda, porque aqui tá coalhado de neguinho que espicha o pescoço e depois entrega na caguetagem. Vou abrir o jogo contigo mermão: veio um cara aqui, todo pinta, jeitão de doutor. Veio à tarde, mas o Chicão lá da venda de peixes me falou que veio também de manhã. Como malandro não acorda com o canto do galo, eu só chego aqui no mercado pra marcar ponto depois de filar uma bóia no almoço. Sabe cuméquié, tenho meus negócios por aqui, conheço toda a canalha. Precisou de alguma coisa, é só falar comigo. Tudo na confiança, no sapatinho, pode crer? Porque se eu não arrumo pronto, pode ter certeza que eu mesmo faço. Mas então o cara chegou aqui, se encostou na parede, como quem tá esperando o santo aparecer, me ofereceu um cigarro. Eu tava ali, comendo uma coxinha, mas aceitei pra ver no que dava. Das duas, uma. Fui puxando assunto, levando um papo saudável, jogando um verde aqui, outro ali. Aí o cara deu o serviço. Queria um ferro. Uma arma, saca? Papo brabo esse, mas vi que o cara não era polícia não. Sinto o cheiro dos homi de longe, saio vazado nessas horas. Perguntei pra que é que ele queria o trabuco, mas o cara disse que não sabia. Não falava lá com lá, nem cré com cré. Mas no negão aqui tu pode confiar, e os ponteiro nem deram uma volta e aqui tava eu com a encomenda. Como o cara não era do meio, cobrei o adicional, quer dizer, meus 300% de comissão. Abriu a carteira e mostrou as oncinhas. Aproveitei a sorte e fui fazer uns agrados pra minha nega: um vestidinho novo, um forró e o melhor quarto no motel. Porque comigo é assim: tudo do melhor, sem mixaria. Saca só o estilo do pisante, olha a malha da peita que eu tô vestindo, ó os medalhão. Coisa de primeira. Mas diz aí, malandragem: diqualquié a desses raibam aí? Tá até com cara de puliça, rapá!

- Versão da Polícia: positivo operante. Fomos acionados para atender um chamado de código 225, que é assassinato seguido de fuga. Chegamos ao local do crime e o indivíduo meliante já não se encontrava. Preenchemos o Boletim de Ocorrência e pegamos os depoimentos das testemunhas. Traçamos o perfil do criminoso: homem, caucasiano, idade entre 30 e 60 anos, estatura entre 1,40 e 1,95 m. Positivo, já estamos dando sequência à investigação e averiguando os registros de criminosos fichados que se enquadram na descrição. Foi detido em flagrante o indivíduo que fez a venda ilegal da arma do crime. A população pode dormir tranqüila. 

- Versão do Tablóide: um crime inominável, uma barbaridade sem tamanho, uma absoluta falta de respeito e valor com a vida humana!!! Em plena avenida principal, num bairro pacato de classe média, um sujeito frio e impiedoso, visivelmente drogado e descontrolado, segundo as testemunhas, saca uma arma e, com os olhos em chamas, a verdadeira imagem do mal, o retrato da calamidade, a fúria personificada, descarrega todas as balas num inocente!!! Um inocente, isso mesmo, um pai de família, um indivíduo exemplar, foi brutalmente assassinado pelo simples motivo de estar passeando em seu próprio bairro!!! É uma vergonha para nosso país, vejam só nas imagens do nosso cinegrafista, como a população está indignada, como seus olhos refletem a insegurança, o pânico de presenciar uma cena de tamanha crueldade!!! É indignante, é um absurdo, é simplesmente inacreditável que isso tenha acontecido, as pessoas estão loucas, esse mundo está louco!!! Não é mais possível andar nas ruas com segurança, já não podemos mais confiar em ninguém, a qualquer momento você pode topar com um indivíduo desses, enlouquecido, drogado, viciado, completamente fora de si!!! A qualquer momento alguém pode tirar a sua vida, a vida da sua mulher, dos seus filhos, dos seus vizinhos, dos seus amigos, da sua família!!! Temos imagens chocantes desse crime hediondo!!! Imagens que mostram que chegamos a um ponto alarmante!!! Tirem as crianças da sala, são imagens impressionantes da violência em que vivemos!!! Mas antes, vamos ouvir um recado do nosso patrocinador...

- Versão da Lurdinha: olha, não tô querendo parecer convencida, mas tenho que admitir: o doutor Régis é simplesmente um gênio. Claro que eu sempre fui bonita, nunca me faltaram bons partidos, mas eu andava me sentindo assim, sei lá, meio mosca morta entende? Já não tenho vinte aninhos mais não, hanna. E o importante é estar bem consigo mesma, se gostar, estar feliz com você. Todo mundo fala que a beleza não importa tanto, o importante é o interior, mas vamos admitir, meu bem: não é qualquer uma que consegue parar o trânsito quando passa. Mas não pense que sou só um rostinho bonito e um corpinho de dar inveja até nas menininhas. Não, eu tenho conteúdo também, sou culta, bem educada. Leio muito, tenho bom gosto, não faço o estereótipo da bonequinha não. E esse negócio de fazer plástica já nem é tabu mais, tá todo mundo fazendo e ninguém sente vergonha. Outro dia mesmo, eu li na Veja que já tem até consulta pela internet. Daqui a pouco vai ter concurso de Miss Plástica, pode anotar o que estou dizendo. O doutor Régis já é uma celebridade, tem até modelo e atriz de novela sendo operada por ele. Eu já marquei mais uma cirurgia, dessa vez vou refazer as orelhas e dar uma levantada nos joelhos, aí vou ficar um arraso. Superficial, eu? Never, my darling, pode perguntar pro Silvio, meu marido. Sou culta, inteligentíssima. Na minha cabeceira tem sempre um livro do Paulo Coelho ou da Zíbia Gasparetto. E nunca perco o programa do Jô. 

- Versão da Arma: sou uma Glock 9mm, semi-automática, pente para 14 balas. Fui fabricada em 2001, num galpão sem ventilação na Nicarágua. Número de série: 3215478954. Mas a numeração já está raspada. Quer dizer, já fui aliciada no crime. Não vou ser hipócrita, não vou mentir: participei de assaltos, sequestros e ameaças. Não me julguem, não joguem a culpa em mim: não me orgulho, mas não foi pra isso que eu fui feita? Apesar de tudo, sou uma boa arma, posso garantir. No dia em questão, pelo que me lembro, disparei dois tiros.

- Versão do Homem: ainda não sei explicar o que aconteceu exatamente. Acho que é uma dessas coisas que não tem um único motivo, ou um motivo grande, mas um monte de coisinhas que vão se amontoando e dão em merda. Tipo escândalo na política. As coisas vão aparecendo, aparecendo e logo ninguém mais entende como é que aquilo tudo afundou. Eu acordei numa ressaca do cão. Na noite anterior, enchi a cara com um uísque paraguaio que me serviram numa festa. Não quis fazer a desfeita de recusar e, depois da terceira dose, já nem fazia diferença mesmo. A diferença vem na ressaca. Por uns cinco minutos, depois que eu acordei, não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo: quando um abria, o outro fechava. Quando consegui me coordenar de novo, me levantei e me senti com a consistência de um ovo frito. Fui deslizando até o chuveiro e uma ducha fria fez com que eu melhorasse um pouco. Era agora um ovo cozinho, mas pelo menos estava de pé. Rolei até a cozinha, onde a dona Odete já tinha feito o café. Ela é um anjo, a dona Odete, me sinto agora culpado por ter sido tão ranzinza. Mas é difícil sorrir quando seu cérebro quer a todo custo pedir demissão e arrombar sua cabeça pra poder ir embora e viver uma vida sem aqueles excessos. Saí pro trabalho ainda com o mal estar. Me lembrei da arma que tinha comprado, sem motivo aparente, e voltei pra pegá-la. Não é o tipo de coisa que se deixa jogada aí pela casa. Tentei trabalhar o dia todo, mas não conseguia manter um pensamento por mais de 30 segundos. Talvez tenha sido isso que levou tudo até aquele tiro, o mal estar. A Náusea. Talvez Sartre estivesse certo. Talvez a ressaca tenha sido o que finalmente me iluminou, o castigo de Deus pelos meus prazeres. Entre o Ser e o Nada, havia tudo aquilo: a azia, os pés inchados, os olhos ardendo. Ou talvez eu só queira romantizar a coisa, sei lá. A partir daí ficou tudo meio confuso, me lembro que saí do escritório, peguei um ônibus, desci em uma avenida e caminhei observando as pessoas. De repente eu vejo um sujeito com um sorriso besta na cara. Mas, no meu estado, em que a gravidade lutava contra meus joelhos e o sol fazia acupuntura no meu olho, qualquer sorriso parecia besta. Aí Deus jogou seus dados. Olhei bem pro sujeito, que me parecia estranhamente familiar, tirei a arma da sacola e dei dois tiros. Assim, sem mais nem menos. Daí fui embora. Cheguei em casa e minha mulher estava na frente do espelho esticando o rosto, fazendo caretas. Não me dei ao trabalho de perguntar o que significava aquilo. Arrumei uma mala, expliquei o que sabia - ou seja, quase nada - e fui embora. E agora estou aqui, foragido. Ainda não sei o que houve. Mas não é hora de crise de consciência. O que eu preciso mesmo é de um Engov. 

- Versão do Morto: pois é, aqui estou eu. Morto. Tenho que confessar que não é aquilo tudo que eu sempre imaginei. Não tô reclamando não, mas cadê as trombetas soando, a luz branca me cercando, a voz possante de Deus me chamando? Ainda nem apareceu um anjo, nem um simples assessor, pra me dar as boas vindas. É meio decepcionante, sabe. Esperava alguma coisa diferente, mas parece que é tudo igual. Menos a fumaça, porque aqui não tem carro. Por que teria, se todo mundo voa? Claro que cometi meus pecados, tinha lá minhas manchas, mas quem não tem? No dia mesmo em que fui morto, tava voltando do um encontro com minha amante, a Lurdes, mulher do meu melhor amigo, o grande Silvio. Taí, admiti: o que eu tenho a perder mesmo? Já estou morto, ora! Caminhava tranquilo pela rua, indo pra casa, bem disposto e satisfeito - justiça seja feita, ela tá uma gata - quando o cara aparece e me aponta uma arma. Na hora eu pensei que fosse o Silvio, que tinha descoberto a coisa toda e queria se vingar. Eu até entenderia, podia até perdoar se ele fizesse uma coisa dessas. Mas aí olhei melhor e era um cara que eu nunca tinha visto. Ou melhor, achei que me lembrava vagamente dele lá do Country Club. Mas nem deu tempo de perguntar. Deu dois tiros. O primeiro eu acho que ele errou, mas a verdade é que não tenho certeza. Sei que pelo menos um deve ter acertado, senão eu não estaria aqui. Mas vá lá, não tem mais o que ser feito, é a vida. Ou melhor, é a morte. Agora vocês me dão licença que eu tenho que me aprontar para o show. Estão sabendo? Quem vai cantar hoje é a Marilyn Monroe. E bem que me disseram que os clássicos nunca morrem. Apesar de ainda não saber se isso aqui é mesmo o céu. 



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Créditos:
Texto e fotografia: Thiago Carvalho (todos os direitos reservados)
Publicado no blog O Inimigo do Bom é o Melhor

comment 1 comentários:

Thiago Carvalho disse...

Escrevi esse texto numa madrugada a muitos anos, quando o Robisson Sete me mandou um e-mail com esse outro texto aqui, de autoria dele:

http://hotelsete.blogspot.com/2011/04/passeio-pelo-bairro-do-avarandado.html

Resolvi brincar e fazer uma outra versão dele. Deu nisso.

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