Escravidão (Memória Fotográfica)


Mahdi veio ao Brasil em um barco abarrotado, 300 pessoas, sem espaço, água ou ar bom de se respirar.

José vai e volta do trabalho em um trem lotado, 300 pessoas, sem espaço, água ou ar bom para respirar.


Mahdi foi escolhido e comprado em uma feira de escravos, por conta apenas da força de seus braços, onde foi exibido junto com dezenas de outros.

José foi contratado em uma seleção sem sentido, escolhido apenas pela força de seus braços, onde dezenas de outros desempregados se dispuseram a procura do emprego.

Mahdi trabalha do nascer ao por do sol, descansando como pode – e realiza qualquer função que lhe dizem pra fazer.

José trabalha do nascer ao por do sol, descansando como pode – e tem dois empregos, como servente de pedreiro – faz tudo que lhe ordenam.

Mahdi era punido por qualquer indisciplina que desfiasse o poder de seu senhor. As punições eram severas: falta de comida, espancamento, humilhação.

José trabalha em obras fora da legalidade – superfaturadas, com materiais impróprios. Qualquer indisciplina contra o sistema de seus patrões é punida: se alguém abrir o bico, pode ficar sem o pagamento da diária, perder o emprego – não registrado – e passar fome por isso. Alguns são ameaçados, outros já foram agredidos. Falta comida e sobra humilhação.

Mahdi descobriu que sua sobrevivência não era importante ao seu senhor, que sua vida deveria durar até seu preço ser pago algumas vezes. Após isso, ninguém se importaria se ele morresse e fosse substituído.

José não sabe do dia de amanhã. Acidentes são comuns nas obras. Alguns já morreram, e suas famílias não receberam nenhum amparo. José sabe que sua vida não é mais importante para os seus patrões.

Mãos fortes como as de Mahdi foram as responsáveis pelo crescimento do país, em sua época. Mas um crescimento de colônia, também escravo de um outro senhor.

Mãos fortes como as de José são as responsáveis pelo crescimento das grandes cidades, subjugadas, também escravas de outros senhores.

Nome, CPF e endereço ainda não deram liberdade a quem cometeu o crime de nascer preto e pobre.

Mudou o mundo, continuou o homem o mesmo.

A foto eu fiz na encenação de um espetáculo sobre a Inconfidência Mineira, em Ouro Branco, numa das casas usadas pelos inconfidentes, hoje um museu em homenagem à Tiradentes. Os escravos sempre presentes na trama; sempre peões importantes no jogo. Mas, me lembro bem, quase sem nenhum texto.



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Créditos:
Texto e fotografia: Thiago Carvalho (todos os direitos reservados)
Publicado no blog O Inimigo do Bom é o Melhor

comment 3 comentários:

Luisa L. on 07:01 disse...

Deixamos de ser propriedade de um senhor, para sermos propriedade de muitos senhores. Poder mudar de senhor conforme nos aprouver, dá-nos a ilusão de liberdade.

Belo texto. Abraços!

DiAfonso on 05:03 disse...

Caro Thiago, bom dia!

Excelente texto: as várias formas de escravidão permeiam a contemporaneidade como uma célula cancerígena agrilhoando órgãos sãos. Até quando seremos escravos?!?

Parabéns!

Thiago Carvalho disse...

Escravidão hoje não se faz mais por lei ou decreto, o fascismo vem por dívidas. Prende-se a uma situação por uma abstração e uso de violência para impô-la. Isso vale pra pessoas ou países, quase da mesma forma.

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