Novela Macho


Falta a nós, público masculino, folhetim que honre nossa atenção. Os capítulos atuais trazem beldades pra tentar nos segurar, mas a trama desentranha, chega de perobagens. Marcos Palmeira fez um Mandrake passável, mas a direção peidou na farofa. Fagundão tentou, sei que tentou, mas Bino não convenceu. Falta ainda aquele misto de Jece Valadão, Hugh Hefner, John Wayne e Lampião.
 
Que novela é sempre esse chove não molha, esse mormaço, essa leseira, cadê a praia que me prometeram, quando é que o sertão vai virar mar?

O protagonista é um típico macho roots, caminhoneiro, camisa aberta no peito, medalhão, raiban e fã do Nelson Gonçalves. Um lobo solitário, mas com um comparsa de aventuras. Lembram do Bud Spencer e do Terence Hill? Ele é uma mistura dos dois. Tem um grande amigo, professor de todos os aprendizados da vida, interpretado pelo Pereio.

O que o faz tão pitoresco é ser uma espécie em extinção, quase desaparecida. Mas tanto faz se realidade hoje em dia, a mentira é mais velha que a palavra e a saliva.

Se liga na saga.

A primeira cena começa com ação, claro, não pode deixar de ser. Bandidos num opalão preto perseguindo o caminhão pra roubar a carga. Bem armados, cara de mau, cicatriz atravessando a face, tapa olho, essas sutilezas. Emparelham ao lado do caminhão, fuzil apontado e pedidos de “pára, filho duma quenga, senão é pior”. No que o herói da nossa história não hesita: puxa o freio de mão, solta logo em seguida, manobra arriscada pra deixar o outro passar à frente, mete o pé no acelerador e acerta o carro na traseira. Cena linda, a capotagem, em câmera lenta. Pára, desce do caminhão, cigarro no canto da boca ainda aceso, vê se ficou alguém vivo: só um magrelo de rabo de cavalo, participação especial do Paulo Miklos, todo arrebentado. Mete-lhe um botinaço na cara, sobe no caminhão e la nave va.

Entra a abertura. A trilha sonora fica por conta do Matanza (Ela Roubou Meu Caminhão, versão de estúdio). Cortes rápidos de imagens em bares de beira de estrada, puteiros populares, jogos clássicos de futebol, galinha ao molho pardo e eventuais peitinhos e bundinhas, que isso aqui não é Globo e nem a moral brasileira é tão casta quanto querem te fazer crer.

Cena dois, noite, ele chega em casa, acompanhado. Ao contrário dos marinheiros, ele tem um porto em cada mulher. A ação se passa rápida, entre o flerte e a conjunção carnal: sem paciência para pausas dramáticas, só dá atenção aos intervalos curtos. Perdições. E haja.

Paremos um minuto pra observar o cafofo típico de um macho jurubeba. Fruto mestiço do sangue viking e nordestino, não têm o menor senso estético, Tudo ali é utilitarismo, saca essa Sr. McLuhan! Copos de requeijão e extrato de tomate, nenhuma taça de champanhe, o velho sofá herdado da tia avó, umas panelas sem cabo, o abajur não tem tampo, a janela não tem cortina, só os trilhos. Tupperware pra ele é pote de sorvete vazio. A mesa de jantar tem um catálogo telefônico debaixo de uma das pernas, pra nivelar. A roupa de cama é um lençol marrom, nada de traquitanas egípcias de sei lá quantos fios, comprou na queima de estoque mesmo. O diretor de arte deu chilique e ameaçou demissão três vezes, queira ir à Daslu, mas to pouco me fudendo.

As atrizes principais não ostentam essa magreza televisiva ordinária que vemos hoje. São escolhidas a dedo naquele perfil das italianas curvilíneas e suculentas do Tinto Brass, mulheres mesmo, perfeitas e enxutas balzacas. Anorexia é falta de caldo de feijão e purê de cambutiá. Mas o casting das figurantes ta cheio de pitéuzinhos na flor da idade pra pescar a atenção da rapaziada.

Nosso jurubébico protagonista tem um senso prático, quase criminoso, pra lidar com os encalços femininos, que pra ele esse pingue-pongue de “Homens são de Marte, Mulheres São de Vênus” é só mais um clássico da psicologia vagabunda. Presta atenção na cena que abre o segundo bloco:

- Amor, você acha que esse vestido me deixa gorda?

- Sei lá mulé, tira ele aí e come pra gente ver.

Ou

- Hei, vai mais devagar! Tenha modos, ta?

- Ok. Me passa sua bunda, faz favor?

Ou ainda:

- Mas eu te amo, seu ingrato.

- Ora querida, ela também...

A cultura futebolística também faz parte essencial do enredo. Eu a domino pouco, mas nosso personagem nada de braçadas. E responde aos comentários dos jogos assistidos à companhia dos comparsas, como na cena cinco:

- Vai Neymar, puta que pariu!

- É, o moleque é bom, mas lembra do Diamante Negro? Inventou a bicicleta e em 38, na França, fez gol descalço, depois de perder a chuteira na chuva. E isso antes da gente ter nascido, o canalha.

Ao que todos concordam; negar, quem há? E estala outro torresmo no dente de ouro.

Apesar de sempre pronto pra briga em salão de sinuca, o grão-macho-cavernista sabe também resolver conflitos de forma pacífica. Como na cena em que entra no buteco o pleiba namoradinho da donzela a quem ele (nosso herói) pediu ao garçom que oferecesse uma música no jukebox (Nem Vem Que Não Tem, no original do Wilson Simonal, não essa do Marcelo D2), tirando satisfação, cuspindo “quê que tá mexendo com minha mina aí”, junto com mais dois marombados amigados, e ele, calma e firmemente, coloca uma bala de trezoitão no copo de cerveja do moleque e fica encarando, sem dizer palavra, até o pulha perceber o perigo que corre. Sai com o rabo entre as pernas, jurando vingança, mas indo chorar nos lençóis da casa da mãe. Travelling pra fora do bar, plano aberto, corta.

E chega o momento em que a trama se parece com as de faroestes antigos: enfrentar os bandidos, conquistar a beldade local e ter um ajudante bêbado, mas divertido. Que fica para o próximo capítulo. O nosso herói vira a última dose de pinga de Salinas com pólvora, põe um palito na boca e sai, suando testosterona, pra enfrentar a vida, que viver é lutar.

Liga o caminhão, o amigo já na boléia, e segue estrada adentro, deixando uma nuvem de poeira na noite escura dos pensamentos rápidos.

Corta, sobem os créditos ao som de Chan Chan, de Compay Segundo e Buena Vista Social Clube, contrariando a fina bourgeoisie ufanista nacional. Queria usar de fundo aquela cena do filme “Lua de Fel” em que a personagem da Emanuelle Seigner mija em cima da televisão, mas a produção achou um absurdo de mau gosto. Prova de que não sabem de bosta nenhuma.

Se apetece, deixe aí nos comentários novos capítulos. Já falei, agora quero ouvir.


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Creditos:
Texto e fotografia: Thiago Carvalho (todos os direitos reservados)
Publicado no blog O Inimigo do Bom é o Melhor

comment 3 comentários:

Marco Nagoa on 04:54 disse...

!resgatar é preciso, porque hoje estes caras pegam travestis em bairros as margens das rodovias!

André Salomão on 08:46 disse...

O nosso protagonista aroeira não faz planos de se casar. Nem descarta a possibilidade, afinal, isso não mudaria em nada sua rotina.

Capítulo 2:
CENA 1 - int - dia
Ele acorda e peida debaixo do cobertor Parahyba (aquele mesmo, desde 1925 sapecando nigrim). Nem passa pela sua cabeça segurar aquele estrondo, já que dorme sozinho sempre. Para o macho raiz, a regra é tão clara que ele nem vê como regra... "Comeu, mandou embora" ou "Comeu, foi embora"... E porque ele não vê isso como regra? Porque regras são discutíveis.

Descarregado todo seu potencial flatulento, vai até a geladeira e bebe o que tiver. Não toma café da manhã porque seria um desperdício acordar 30 minutos mais cedo pra preparar um pão de ontem com manteiga.

Uma vez foi questionado sobre como seria sua vida de casado. Ele não respondeu. Porque esse tipo de homem não perde tempo imaginando. Abstração pra ele parece ser uma mistura de sequestro de ETs com momentos de falta de atenção.

TO BE CONTINUED

Anônimo disse...

ta bom,
bjo.

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